7.13.2014


fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingir
que está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:
ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:
amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.

José Luís Peixoto

Hoje aviso-te
que ficarei para sempre
arquejando no teu corpo,
na orla infinita da tua mão,
no teu ombro, que é uma espada.
Na tua língua, que é a minha.
Só o teu coração saberá
se é
promessa ou ameaça,
mas ficarei para sempre
e basta.

E entre os dois – estranhamente -
termina o absurdo território do poder.
Aproximas-te:
água-deserto-mel,
e estendo-me
mel-deserto-água.
Não sei onde começas,
onde começo...
como a dança do golfinho no oceano.


Lourdes Espínola

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doído anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que não me amas...

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas...

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

Ganhámos juntos o que perdemos separados:
a luz incomparável, esta luz quase louca
da primavera, esta gaivota
caída dos ombros da luz,
e a leve, saborosa tristeza do entardecer,
como uma carta por abrir,
uma palavra por dizer…

Ganhámos juntos o que vamos perdendo
separados:
a alegria – inocente
cidade,
coração aberto pela manhã,
pequeno barco subindo
nitidamente o rio,

fumegando, fumando
com o seu ar importante de homenzinho…
E a ternura – beijo sobrevoando
o teu rosto fiel,
fogo intensamente verde sobre a terra,
intensamente verde nos teus olhos,
pequeno «nariz ordinário»
que entre os meus dedos protesta
e se debate.

Alexandre O'Neill


Deve haver um lugar onde um braço
E outro braço sejam mais que dois braços
Um ardor de folhas mordidas pela chuva,
A manhã perto nem que seja de rastos.

Eugénio de Andrade, in O peso da sombra 

Nunca falámos muito


(acho que nunca falámos nada)

e não sinto necessidade de começar agora. O que lhe poderia dizer?
-existem séculos e séculos de silêncio entre nós e, debaixo dos séculos de silêncio,
ocultas lá no fundo, se calhar esquecidas, se calhar presentes, se calhar apagadas,
se calhar vivas e a doerem-me, coisas que prefiro não transformar em palavras, coisas anteriores às palavras (...)

António Lobo Antunes

Pergunta-lhe se quer ver o canto onde dorme, mesmo ali ao lado. Ela diz: claro que desejo saber onde sonham os poetas.
Sobem por umas escadas que sobem muito depressa. Um quarto com uma cama e uma cadeira em madeira escura, um quarto de banho, uma cozinha pequenina.
Cabia tudo dentro da sala mais pequena da Quinta das Flores. E muitos livros espalhados pela casa num completo desarrumo. Em pilhas de várias altura no chão.
Algumas correm o risco de se desmoronarem. Livros em estantes em que o espaço entre os livros colocados perpendicularmente e a tábua superior é ocupado por livros
deitados uns sobre os outros. Naturalmente a descansarem do enorme esforço que foi escrevê-los. Mil dias para escrever um livro, dez dias para o ler.

Pedro Paixão in Rosa Vermelha em Quarto Escuro