3.15.2011

o amor é fodido

"Não acontece nada enquanto estamos felizes. Só estamos felizes porque houve alguma coisa que já aconteceu. O que nos vale é a lembrança duma vida de martírio ininterrupto. E de infinito prazer."


Miguel Esteves Cardoso

O amor é fodido

"Quanto mais longe, mais perto me sinto de ti, como se os teus passos estivessem aqui ao pé de mim e eu pudesse seguir-te e falar-te e dizer-te quanto te amo e como te procuro, no meio de uma destas ruas em que te vejo, zangado de saudade, no céu claro, no dia frio. Devolve-me a minha vida e o meu tempo. Diz qualquer coisa a este coração palerma que não sabe nada de nada, que julga que andas aqui perto e chama sem parar por ti."


Miguel Esteves Cardoso

3.13.2011

búzio de cós

Este búzio não o encontrei eu própria numa praia
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe o ressoar dos temporais

Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada



Sophia de Mello Breyner.

Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

              Fernando Pessoa

3.12.2011

Espera por mim, que eu voltarei,
Mas espera com toda a tua força,
Espera quando a tristeza te invadir
Com as chuvas amarelas,
Espera quando os flocos de neve cobrirem o solo,
Espera durante o calor,
Espera quando os outros tiverem desistido,
Espera com o passado esquecido.
Espera quando, de longe, Te não chegarem cartas,
Espera quando todos os que esperaram contigo se tiveram cansado de esperar.

Espera por mim, que eu voltarei,
Não acedas
Àqueles que dizem que deverias esquecer-me,
Insistindo nesse argumento,
Ainda que meu filho e a minha mãe
Julguem que eu desapareci,
Ainda que meus amigos se cansem de esperar,
Se instalem à lateira e bebam
Um copo de amargura,
Para que a minha alma descanse em paz. [...]
Espera. Não te apresses a juntar-te a eles
Nesse brinde que me fazem.

Espera por mim, que eu voltarei,
Mais que não seja para contrariar todas as mortes.
Bem podem aqueles que não esperaram
Dizer: «Ele teve sorte.»
Eles terão dificuldades em compreender,
Esses que não esperaram,
Que, tendo esperado por mim
Ao calor da lareira,
Foste tu que me salvaste.
Só eu e tu sabemos
Como foi que eu sobrevivi -
É que tu sabes esperar
Como mais ninguém sabe.

Simonov

3.06.2011